O dilema de Costa

Dos muitos portugueses que nesta semana se viram parados na fila de uma qualquer bomba de combustível alguns devem-se ter questionado aonde está a paz social prometida nos primeiros dias da geringonça?

foto: dinheirovivo.pt

Essa paz existiu, um acordo feito entre PS, BE e PCP permitiu que Portugal vivesse um período de relativa estabilidade e recuperação económica depois dos anos negros de austeridade e contenção orçamental protagonizados pelo governo de Passos Coelho.

Este acordo beneficiou ambas as partes, o PS pode voltar ao governo e a extrema-esquerda que conseguiu retirar algumas benesses para o seu eleitorado, nomeadamente função publica e reformados. António Costa recuperou um governo da época de Guterres e PCP/BE passaram de forças de protesto a suporte do governo, a direita parlamentar desapareceu do mapa.

Portanto, neste momento tudo são favas contadas para António Costa? Talvez não.

O problema é que a dita recuperação económica não chegou ao sector privado, a geringonça ocupou-se de repor rendimentos ao sector publico mas a carga fiscal continua a aumentar e é cada vez mais visível a degradação dos serviços e dos meios dos estado, especialmente no sector dos transportes.

E se o governo teve uma atitude mais tolerante em relação ao estivadores aquando da greve no porto de Setúbal nesta última greve dos camionistas, este, utilizou todos os seus meios e influência para evitar o caos gerado pela greve de Abril e não esteve para meias medidas: decreta serviços mínimos de 100%, repete ameaças de requisição civil, utiliza militares, manieteia a comunicação social contra os grevistas.

Muito pouca da compaixão socialista ou tolerância democrática apregoada pela esquerda para com os grevistas, por alguns momentos Antonio Costa pareceu mais um ex-ministro de Cavaco Silva do que de Antonio Guterres.

Alguns terão dito que com isto António Costa terá conquistado a direita e a maioria absoluta, é possível!

Mas perdeu a esquerda, este foi sem duvida um dos períodos mais humilhantes para a esquerda parlamentar num passado recente, que teve de se manter surda-muda ou esconder-se no habitual cinismo quando uma das suas mais bandeiras mais caras, a da defesa dos trabalhadores, era pisada e recalcada sem apelo nem agrado pelo governo de António Costa.

Portugal neste momento não possui oposição e pior do que isso, não possui partidos de protesto, aqueles que melhor ou pior expõem as grandes falhas ou males do partidos do circulo governamental.

O sindicalismo e associativismo assim como a comunicação social também têm as suas agendas e estão cúmplices a este establishment, inevitavelmente o futuro vai trazer movimentos ainda mais radicais e extremistas para esse papel e tornar a luta política numa luta anti-establishment.

Os trabalhadores portugueses estão sozinhos na luta pelas suas reivindicações, os camionistas de matérias perigosas pelo menos já chegaram a essa conclusão.